Dicas para Entrevistado e Entrevistador

Pessoa x Pessoa

 

Conselhos para o comportamento adequado durante uma entrevista, seja de que lado você esteja


Reconheça que todo encontro é emocional. Não existe o chamado encontro impessoal de almas. Há sempre um intercâmbio entre consciências, uma troca de sentimentos, entre as pessoas que conversam. Seja o cliente com o garçom que o atende no restaurante, seja entre pessoas invisíveis de cada lado de uma conexão telefônica (a conversa não é perfeita, pela impessoalidade, quando a voz que atende do outro lado é uma gravação). Mas para que haja troca verdadeira, temos que baixar nossas defesas. Toda entrevista é um encontro emocional em que arriscamos um pouco do nosso amor-próprio. Se as pessoas sucumbirem à tensão dessa preocupação, poderão mostrar-se desconfiadas, suscetíveis ou francamente hostis. Não haverá bom resultado que possa advir de uma entrevista baseada numa postura dessas.

Entrevistadores experientes, quando conversando com desempregados, nunca perguntariam isto: 'Parece que você não está trabalhando no momento, não é?' e sim isto: 'Você está procurando um emprego no momento ou vai esperar um pouco?' Um conselheiro matrimonial não pergunta ao casal: 'Por que motivo vocês brigam?', mas: 'Quando surgem desavenças, como é que vocês tentam resolvê-las?'.
Ou seja, se o entrevistador invade sentimentos que o entrevistado não está ainda preparado para admitir, o resultado será a provocação de tamanha resistência que jamais conseguirá chegar nem perto de uma resposta satisfatória. E lá se foi a entrevista, anulada pelo despreparo.
Compete ao entrevistador descobrir o que está na cabeça do entrevistado e começar a conversa a partir daí. A mais curta distância entre dois assuntos ou dois pontos de vista pode muito bem ser um longo caminho em volta do assunto, necessário para o desarmamento dos espíritos.

A entrevistada bem sucedida é sempre mais parecida com uma conversa agradável do que com um interrogatório. Os gregos tem uma palavra muito adequada para entrevista: ágape, e significa 'ter interesse por'. Portanto conversar, para os sábios gregos, era manifestar interesse pelo ponto de vista do outro. Com esse espírito, ninguém deixaria de cooperar.

Aprenda a formular perguntas. Quem quer se mostrar esperto e formula perguntas ardilosas quase sempre recebe respostas falsas. Vamos ver a diferença entre essas duas questões: 'A empresa pode omitir informações sobre a sua real condição financeira para tentar conquistar mercados e garantir empregos?' ou 'O presidente tem o direito de omitir informações de seus funcionários para tentar salvar a imagem da empresa?' Embora as duas perguntas possam apresentar a questão com razoável precisão, uma delas está formulada com o objetivo claro de produzir resposta favorável, enquanto a outra desperta oposição.
Um adjetivo pode injetar uma carga emocional numa questão. Veja a diferença entre estas duas: 'Você concorda que a indústria do Paraná faça isto ou aquilo...?' e 'Você acha que as multinacionais paranaenses estão certas ao fazer isto ou aquilo...?
Perguntas em que se consulta se as pessoas são a favor de alguma coisa sempre obtêm maior número de respostas favoráveis do que daquelas em que se consulta se são contra alguma coisa.

Proteja a outra pessoa. A literatura e a cinematografia costumam exibir entrevistas como duelos de inteligência de detetives, advogados ou jornalistas, que têm como objetivo procurar os pontos fracos do adversário. Desculpe, leitor, mas a ficção está errada. Na vida real, as pessoas que conduzem entrevistas devem, em geral, fazer exatamente o oposto: formular perguntas para procurar os pontos fortes. A razão é simples: buscar fraquezas sempre coloca a outra pessoa na defensiva. Mas, ao reconhecer pontos positivos, cria-se um vínculo.
A proteção do amor-próprio da outra pessoa é um ponto vital para a obtenção de informação.

Não diga ao entrevistado o que deve responder. Especialistas em pesquisas de opinião costumam dizer que as sugestões das predileções e desejos do próprio entrevistador são a maior fonte de erros nos levantamentos de opinião pública. De modo completamente inconsciente, o entrevistador pode manifestar indícios que sugerem o que deseja que as pessoas respondam. É por isso que um chefe muitas vezes tem dificuldade em evitar colaboradores que só sabem dizer 'amém'. E é por isso que os pais muitas vezes enfrentam a mesma dificuldade quando tentam descobrir exatamente o que seus filhos estão tramando. A razão, com freqüência, é que, naturalmente, as crianças sentem que devem adulterar a expressão de seus pensamentos e os informes sobre suas atividades para evitar situações incomodas com os pais.

Atenção à enunciação de suas palavras. Encontrar em outras pessoas exatamente o que esperávamos encontrar, geralmente significa que pusemos nossas palavras em sua boca. Você já viu alguém pegando o último salgadinho de uma bandeja? Em geral faz uma pergunta como esta para os companheiros: 'Ninguém quer mais salgadinho, não é?'. Em geral as pessoas não se atrevem a contradizê-lo, porque sabem que o que ele quer ouvir é que ninguém quer comer mais e que ele pode ficar com a comida.

Pessoas veteranas em relações humanas – notadamente as mulheres, que têm o que se convencionou chamar intuição feminina – usam sempre essa poderosa técnica de prestar atenção às notas emocionais subjacentes. Muitas vezes, deste modo, alcançam a verdadeira compreensão tão rapidamente que os entrevistadores orientados pelos fatos ficam estarrecidos.

Aprenda a arte da pergunta em suspenso. Não faça muitas perguntas. Em vez de interrogar, os entrevistadores profissionais atualmente começam apenas por fazer as pessoas falarem – sobre o tempo, esportes ou qualquer outra coisa.

Torne claro o seu propósito
. O fundador do Instituto Gallup de pesquisas de opinião, Dr. George Gallup, num depoimento a uma revista norte-americana, explicou uma vez: 'Quando fazemos uma indagação, a pessoa imediatamente pergunta a si mesma: ‘Por que é que ele quer saber?’ A não ser que o nosso propósito esteja claro, a pessoa pode mostrar-se relutante em conversar, ou aproveitar a oportunidade para nos relatar todos os seus problemas'.
Quando aceitamos comparecer a uma entrevista de emprego, a situação está perfeitamente definida e o entrevistador pode fazer-nos perguntas que até nos ofenderiam se fossem feitas por outra pessoa. Mas ao solicitarmos um empréstimo, por outro lado, aceitamos perguntas de um banqueiro que nos ofenderiam se fossem feitas pelo entrevistador da empresa que nos quer contratar. É uma questão de definir o propósito da situação, para diminuir a natural tensão que de outra forma impede o fluxo de informações.
Lembro-me de que, certa vez, em um seminário sobre a ética na imprensa, uma pessoa que eu nunca vira antes começou a me fazer perguntas sobre o meu trabalho, se eu estava feliz no jornal que dirigia à época, que pensava pensava disto ou daquilo dentro do jornalismo. Fiquei incomodado com o que me pareceu bisbilhotice e perguntei um pouco rispidamente por que me estava fazendo aquelas perguntas. Ele respondeu, meio sem jeito: 'Oh! Pensei que você tivesse me reconhecido! Sou o dono da editora ... e gostaria de convidá-lo para trabalhar comigo.'

Reaja às expressões de sentimento. Este é um instrumento poderoso que a psicanálise legou às gerações de consultores profissionais, psicólogos, médicos, e até padres, para ir ao fundo de problemas pessoais que lhes são apresentados. Em lugar de tentarem entender os fatos (quem disse ou fez o que a quem) ou darem conselhos específicos, ouvem ou encorajam todas as manifestações de sentimento, por mais fracas ou passageiras que sejam. O reconhecimento desses sentimentos, sem julgamento ou crítica, muitas vezes tem um efeito quase mágico de fazer a pessoa se abrir. A verdade vem à tona, e com ela, muitas vezes, a auto-revelação.

Como dissemos no início desta nossa conversa, entrevistar é uma arte em que às vezes é preciso ceder para obter os resultados almejados. Uma troca não só de informações mas de sentimentos. Uma boa entrevista resulta em informações cedidas e às vezes até oferecidas. E, em geral, resulta em duas pessoas mais enriquecidas e melhores.

Você precisa entrevistar alguém?

Sair-se bem em entrevistas de emprego é fundamental para quem está buscando uma colocação no mercado de trabalho. Da mesma forma, é importantíssimo que a pessoa que está na posição de contratar candidatos tenha preparo para conduzir de maneira efetiva uma entrevista de emprego.

Em primeiro lugar, você não quer dificultar as coisas para o candidato, nem é sua intenção transformar a entrevista em uma tortura. Por isso, cuide do ambiente onde vai se realizar a entrevista. Deixe a mesa limpa e sem aqueles montes de objetos pessoais, como fotografias de família, lembranças, bibelôs, e principalmente objetos de cunho religioso, político ou racial. Isto desvia a atenção do candidato e prejudica a concentração dele.

Em segundo lugar, certamente você quer causar uma boa impressão a respeito da empresa, para estimular o candidato a se juntar ao time. Receba-o num escritório limpo, com móveis limpos e em boas condições. Você não quer que ele pense que a empresa não investe no conforto dos empregados, quer?

Em terceiro lugar, pense na sua própria apresentação. A sua aparência é boa? Suas roupas estão limpas e discretas? Desalinho causa péssima impressão. Você, como entrevistador, deve chamar a atenção pelo que fala e não pelo que veste - lembre-se de que o candidato verá em você a imagem da empresa.

E se fosse você?

Lembre-se das entrevistas de que você participou como candidato, e aja para dar ao seu entrevistado o mesmo respeito e a primeira boa impressão que você gostaria de ter tido. Você deve recebê-lo num local privado, em que ele se sinta à vontade para falar, sem ter a toda hora gente passando por perto, gente ouvindo a conversa ou fazendo barulho.

Não deixe os preconceitos influenciarem você. Se o candidato está vestido de maneira deselegante, isso não quer dizer necessariamente que ele seja desleixado ou negligente no trabalho. Se o candidato é muito elegante, isso não quer dizer também que seja pedante ou egoísta. O que está em jogo são as habilidades, o talento e a competência do candidato, não a sua aparência (evidentemente a aparência conta muito da personalidade, mas não tudo - Albert Einstein era o gênio que era e ao mesmo tempo famoso pela deselegância).

Igualmente importante: você fez a sua lição de casa? Leu o currículo do candidato cuidadosamente antes de chamá-lo para a entrevista? Ou vai ficar perguntando coisas óbvias, que estão no currículo, e que só mostram que você não se preparou para a entrevista?

O que investigar?

De modo geral as pessoas tendem a supervalorizar sua experiência ou habilidades no currículo. O seu papel, como entrevistador, é verificar se há algo de errado nas informações contidas ali. Para isto serve uma entrevista de emprego, e não para confirmar as qualidades do candidato.

Por isso, concentre-se em obter explicações consistentes e esclarecedoras sobre: Lacunas de tempo entre empregos - são desempregados inconfessados? Em caso positivo, por que aconteceram?

Exagero na relação de cursos realizados - descubra se foram cursos realmente importantes e reconhecidos ou cursos sem importância que foram colocados apenas para tentar causar boa impressão.

Declaração de que gerenciou equipes - gerenciou mesmo? Eram projetos independentes ou ele apenas supervisionava?

Contradições em relação a tempo de experiência - muitas vezes o candidato declara ter mais experiência do que efetivamente tem.

Mudanças laterais de emprego - o bom candidato em geral tem carreira ascendente, e muda de emprego para ocupar posições mais importantes; candidato que não teve promoções na carreira não costuma ser bom funcionário.

Nomes impressionantes de cargos - alguns candidatos procuram disfarçar funções utilizando títulos para impressionar, nem sempre condizentes com a realidade.

A regra dos três "erres"

Um dos maiores especialistas em entrevistas, Randi Toler Sachs, da American Management Association, recomenda ao entrevistador ouvir muito. Prestar atenção em tudo, e estar aberto para receber informações, sem impor opiniões nem parâmetros. Sachs é autor do livro "Como se transformar em um entrevistador habilidoso", publicado pela Editora Campus.

Segundo ele, uma das grandes dificuldades dos entrevistadores é obter respostas para perguntas consideradas difíceis. Ele recomenda a fórmula dos três Rs para conseguir do candidato informações que reluta em fornecer: repetir, reformular, requerer.

Repetir: quando o candidato evita responder ou simplesmente porque não estava suficientemente atento à pergunta.
Reformular: quando a pergunta pode ter soado ameaçadora ou constrangedora da primeira vez. Suavize ao insistir.
Requerer: quando a resposta é fundamental para a entrevista, você pode ter que exigir que ele responda, mas sempre com respeito e educação.

Eduardo Martins, jornalista, autor do Manual de Redação do jornal O Estado de S. Paulo, faz algumas recomendações para a entrevista jornalística, que podem ser aproveitadas pelo executivo que vai entrevistar um candidato:


*Saiba quanto tempo terá para a entrevista. Se forem poucos minutos, vá direito ao assunto e evite as introduções desnecessárias.

*Informe-se sobre o entrevistado. É o mínimo que você pode fazer para que suas perguntas sejam pertinentes e objetivas.

*Há entrevistados mais ou menos difíceis; com habilidade, porém, será sempre possível conseguir deles pelo menos as informações e opiniões essenciais.

*Esteja preparado para acompanhar o rumo que a entrevista seguir; embora você possa ter um roteiro estabelecido, talvez o entrevistado não o siga à risca.

*Espere o entrevistado concluir seu pensamento para lhe fazer uma nova pergunta.
 

Fim

Fonte: Catho